A virgem de quarenta anos
Parte finalJ’adore
" De
repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
”
Soneto de separação - Vinicius de Moraes
A vida corria mansa e tranquila. Tranquila até demais. Solange,
por insistência de Lourival, diminuíra seu horário de trabalho no escritório.
Esperava-o todas as tardes e, na varanda do apartamento, juntos tomavam um
vinho, observando o sol se pôr. Tudo lindo, do jeitinho que ele havia
prometido. Amante à moda antiga, como na canção, sempre lhe trazia flores,
adivinhando todos os seus desejos. Um lenço de seda, o livro que ela queria, um J’adore para substituir o que estava
acabando. E as noites eram quentes e cheias de amor.
Mas o tempo! Ah o
tempo! O tempo foi passando, os dias todos iguais, parecia que faltava alguma
coisa. Habituada desde sempre a resolver seus assuntos, encontrar os amigos,
passear pelo parque, ir à academia, Solange percebeu que não fazia mais isso.
Pelo menos sozinha. Lourival estava sempre junto, adivinhando seus pensamentos,
levando-a a todos os lugares. Solange se sentia sufocar.
Ele, por seu
lado, também não se sentia satisfeito. Acabara-se a época do futebol com os
amigos, aos sábados à tarde e das noitadas regadas à cerveja, às sextas-feiras. Havia os jantares e o cinema dos fins de semana, mas, enquanto
Solange queria comer sushi, Lourival
preferia ir à uma churrascaria; se Solange sugeria um filme francês, Lourival
comprava os ingressos de um filme de ação.
Aos poucos o tédio dos dias foi avançando também para as
noites, que já não eram mais tão ardentes. A rotina instalando-se devagar,
quase sem se fazer perceber. A paixão indo embora e a impaciência tomando conta
dos dois
Escassearam os presentes. Não havia mais flores. O vinho quase
não estava mais à mesa da varanda. Até o pôr do sol foi esquecido, como se a
noite chegasse, assim, de repente, num estalar de dedos.
O amante foi virando irmão, os beijos apaixonados
transformados em meros beijinhos entre amigos.
Hoje, cada um para o seu lado, eles ainda se perguntam:
- Onde foi parar aquela paixão toda?
Mas a noite da primeira vez, Solange guardará para sempre na lembrança.
Não há como esquecer de Lourival, do seu carinho, do perfume nos lençóis
macios.
E a cada novo amor, em cada encontro, Solange sempre sussurra
ao ouvido do amante:
- J’adore.