Rondó de mulher só
Com alguma
ansiedade, ela se arruma para sair. Pensa em ir ao cinema, quem sabe fazer
algumas compras. Dá uma última olhada no espelho com ar de aprovação, pega a
bolsa e dirige-se para a porta. No carro, liga o rádio e o som dos Beatles
a invade. Sorri, cantarolando Yesterday
e lembrando que ela e os filhos gostam das mesmas músicas.
No shopping, olha
as vitrines, observa as tendências. Entra em algumas lojas, pensa em comprar sapatos
novos. Não está precisando, mas adora sapatos, principalmente se forem vistosos
e de saltos altíssimos. Compra o ingresso para o cinema, encaminha-se para a
sala. É cedo ainda. Observa as pessoas ao redor, muitas sozinhas como ela,
outras em pequenos grupos, poucos casais. Ninguém interessante. Talvez esperasse
encontrar alguém, quem sabe alguém que a completasse, alguém que a entendesse,
que a fizesse feliz. Alguém que a visse como uma mulher apenas, não exigisse
dela outro papel que não o de ser somente uma mulher.
Começa o filme.
É uma história de amor em que a protagonista imagina estar sendo traída pelo
marido e resolve fazer o mesmo. ”O amor é complicado”, ela pensa. “Simples é o
sexo, não exige continuidade. Se não há o amor, tudo acaba e pronto.”
Saindo do
cinema dirige-se à cafeteria. Pede um espresso duplo. Corre o olhar em volta,
imaginando o George Clooney lhe trazendo um café, mas o que vê é um jovem com o
braço todo tatuado, que a observa com certo interesse. Desvia rapidamente o
olhar:“ Não, melhor sonhar com o George Clooney.” Bebe seu café, pensa em
passar no supermercado: “ Vou comprar um vinho.”
Já em casa,
abre a porta, ouve apenas o silêncio. Não há ninguém. Um arrepio perpassa-lhe o
corpo, fecha a janela. Observa o céu enfeitando suas nuvens com cores róseas,
rubras, até sumirem finalmente em mais um pôr-do-sol atrás do rio. É a noite
anoitecendo, o dia terminando, a vida vivendo
e acendendo as primeiras luzes.
Liga a TV,
põe o vinho para gelar, prepara um
jantar leve e arruma a mesa. Hoje vai usar a louça nova e os copos de cristal .
Abre o vinho e senta no sofá. Fazendo um brinde, fecha os olhos. Bebe
lentamente. O sabor do vinho a leva para longe. Revê cenas de outros tempos.
Cenas tão longínquas que parecem saídas de outra vida.
O marido chega, trazendo o vinho branco que ela gosta: -“O que
temos para o jantar”? O filho a abraça com carinho, a filha pendura-se no seu
pescoço, falando ao celular com o namorado.
- Vou sair com o Marcelo, mãe!
- Pai, preciso de uma grana!
- Não voltem tarde!
Coloca mais
vinho no cálice. O telefone toca:
- É você?
...
- Sim ,claro,
vamos combinar.
...
Crônica escrita na Oficina Literária " A Persistência do amor"do escritor Rubem Penz , em homenagem ao cronista Paulo Mendes Campos.
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