terça-feira, 14 de junho de 2016

Rondó de mulher só
                                                                                               
Com alguma ansiedade, ela se arruma para sair. Pensa em ir ao cinema, quem sabe fazer algumas compras. Dá uma última olhada no espelho com ar de aprovação, pega a bolsa e dirige-se para a porta. No carro, liga o rádio e o som dos  Beatles a invade. Sorri, cantarolando Yesterday e lembrando que ela e os filhos gostam das mesmas músicas.
No shopping, olha as vitrines, observa as tendências. Entra em algumas lojas, pensa em comprar sapatos novos. Não está precisando, mas adora sapatos, principalmente se forem vistosos e de saltos altíssimos. Compra o ingresso para o cinema, encaminha-se para a sala. É cedo ainda. Observa as pessoas ao redor, muitas sozinhas como ela, outras em pequenos grupos, poucos casais. Ninguém interessante. Talvez esperasse encontrar alguém, quem sabe alguém que a completasse, alguém que a entendesse, que a fizesse feliz. Alguém que a visse como uma mulher apenas, não exigisse dela outro papel que não o de ser somente uma mulher.
Começa o filme. É uma história de amor em que a protagonista imagina estar sendo traída pelo marido e resolve fazer o mesmo. ”O amor é complicado”, ela pensa. “Simples é o sexo, não exige continuidade. Se não há o amor, tudo acaba e pronto.”   
Saindo do cinema dirige-se à cafeteria. Pede um espresso duplo. Corre o olhar em volta, imaginando o George Clooney lhe trazendo um café, mas o que vê é um jovem com o braço todo tatuado, que a observa com certo interesse. Desvia rapidamente o olhar:“ Não, melhor sonhar com o George Clooney.” Bebe seu café, pensa em passar no supermercado: “ Vou comprar um vinho.”
Já em casa, abre a porta, ouve apenas o silêncio. Não há ninguém. Um arrepio perpassa-lhe o corpo, fecha a janela. Observa o céu enfeitando suas nuvens com cores róseas, rubras, até sumirem finalmente em mais um pôr-do-sol atrás do rio. É a noite anoitecendo, o dia terminando, a vida vivendo  e acendendo as primeiras luzes.
Liga a TV, põe o vinho para gelar, prepara um  jantar leve e arruma a mesa. Hoje vai usar a louça nova e  os copos de cristal .
 Abre o vinho e senta no sofá.  Fazendo um brinde, fecha os olhos. Bebe lentamente. O sabor do vinho a leva para longe. Revê cenas de outros tempos. Cenas tão longínquas que parecem saídas de outra vida.

O marido chega, trazendo o vinho branco que ela gosta: -“O que temos para o jantar”? O filho a abraça com carinho, a filha pendura-se no seu pescoço, falando ao celular com o namorado.
- Vou sair com o Marcelo, mãe!
- Pai, preciso de uma grana!
- Não voltem tarde!

Coloca mais vinho no cálice. O telefone toca:
- É você?                                                      
...
- Sim ,claro, vamos combinar.
...

Crônica escrita na Oficina Literária " A Persistência do amor"do escritor Rubem Penz , em homenagem ao cronista Paulo Mendes Campos. 


   

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