sexta-feira, 22 de junho de 2018

     

A virgem de quarenta anos

Parte final     

J’adore   

     
                                                   " De repente, não mais que de repente
                                                      Fez-se de triste o que se fez amante
                                                      E de sozinho o que se fez contente. ”
                                                        Soneto de separação - Vinicius de Moraes

A vida corria mansa e tranquila. Tranquila até demais. Solange, por insistência de Lourival, diminuíra seu horário de trabalho no escritório. Esperava-o todas as tardes e, na varanda do apartamento, juntos tomavam um vinho, observando o sol se pôr. Tudo lindo, do jeitinho que ele havia prometido. Amante à moda antiga, como na canção, sempre lhe trazia flores, adivinhando todos os seus desejos. Um lenço de seda, o livro que ela queria, um J’adore para substituir o que estava acabando. E as noites eram quentes e cheias de amor.
 Mas o tempo! Ah o tempo! O tempo foi passando, os dias todos iguais, parecia que faltava alguma coisa. Habituada desde sempre a resolver seus assuntos, encontrar os amigos, passear pelo parque, ir à academia, Solange percebeu que não fazia mais isso. Pelo menos sozinha. Lourival estava sempre junto, adivinhando seus pensamentos, levando-a a todos os lugares. Solange se sentia sufocar.
 Ele, por seu lado, também não se sentia satisfeito. Acabara-se a época do futebol com os amigos, aos sábados à tarde e das noitadas regadas à cerveja, às sextas-feiras. Havia os jantares e o cinema dos fins de semana, mas, enquanto Solange queria comer sushi, Lourival preferia ir à uma churrascaria; se Solange sugeria um filme francês, Lourival comprava os ingressos de um filme de ação. 
Aos poucos o tédio dos dias foi avançando também para as noites, que já não eram mais tão ardentes. A rotina instalando-se devagar, quase sem se fazer perceber. A paixão indo embora e a impaciência tomando conta dos dois 
Escassearam os presentes. Não havia mais flores. O vinho quase não estava mais à mesa da varanda. Até o pôr do sol foi esquecido, como se a noite chegasse, assim, de repente, num estalar de dedos.
O amante foi virando irmão, os beijos apaixonados transformados em meros beijinhos entre amigos.
Hoje, cada um para o seu lado, eles ainda se perguntam:
- Onde foi parar aquela paixão toda?

Mas a noite da primeira vez, Solange guardará para sempre na lembrança. Não há como esquecer de Lourival, do seu carinho, do perfume nos lençóis macios.
E a cada novo amor, em cada encontro, Solange sempre sussurra ao ouvido do amante:
- J’adore.                                                                                       
                                                                           
                                                               



            





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