A virgem de quarenta
anos
Parte 2
O acidente
Além do barulho forte e do ranger de freios, Solange não ouve
mais nada. Também não vê coisa alguma. Somente uma luz muito clara que, mais
que vê, ela sente. E um silêncio enorme. Total. Sabe que está caída no chão,
sente a dureza do asfalto e o sangue escorrendo da sua testa. Nenhuma dor,
nenhum som, só aquela luminosidade incrível e aquela sensação de paz muito
grande.Será isso a morte? A sirene de uma ambulância, talvez mais de uma,
entra agora em seus ouvidos. O som estridente aos poucos vai diminuindo até
sumir de vez. Junto com a luz.
Sem a menor noção de quanto tempo passou, Solange, de
repente, escuta, ao longe, um leve barulho de instrumentos metálicos e vozes que
sussurram, parecendo chegar cada vez mais perto. Mesmo assim não consegue
entender o que dizem. Tenta mexer o corpo, mas é impossível. Entreabre os
olhos, percebe novamente a luz, agora mais forte, e alguns rostos, cobertos com
máscaras verdes (ou serão azuis?), debruçando-se sobre ela. Um dos rostos se aproxima:
- Como se sente? Está me ouvindo?
Ela tenta responder, mas a voz não sai.
- Você sofreu um acidente, mas não se preocupe, tudo vai
ficar bem. Estamos cuidando de você.
Os ruídos continuam por algum tempo, o silêncio volta e a luz
fica. Não vai embora.
Solange gosta da luz e
da sensação de paz que ela transmite. Não sabe se está sonhando, se o dia já começou
ou se a noite ainda não acabou. Ouve o barulho e o rangido dos freios e, ao mesmo
tempo, sente o abraço e o carinho de Lourival, suas mãos fortes e delicadas
deslizando pelo seu corpo virgem, agora não mais. Realidade e fantasia se misturam
num turbilhão de sensações. Parece escutar a voz dele chamando por ela. A voz
se aproxima, fica mais nítida. Abre os olhos, lentamente, e o vê a seu lado,
segurando sua mão. Ele fala com carinho, atropelando as palavras. Diz que
estava preocupado, mas que agora está feliz, os médicos falaram que ela, em
breve, terá alta.
-Vou cuidar de ti, querida. Logo, logo, estarás recuperada. Sabe
da novidade? Aluguei um apartamento para nós. É pequeno, mas aconchegante. Tem
uma varanda onde podemos sentar à tardinha para ver o pôr do sol ou tomar café
pela manhã. E uma vista para o parque. Se quiseres, podemos ir para lá quando
saíres daqui. Vais gostar, vamos ser muito felizes.
Solange esboça um sorriso, não diz nada. Ouve o que lhe diz
Lourival, apertando suavemente sua mão. Os olhares se cruzam numa promessa
silenciosa. Uma promessa de amor, de carinho, de parceria, de felicidade.
Promessa de uma vida nova.
Promessa de uma vida nova.
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