sábado, 16 de junho de 2018



A virgem de quarenta

Virgindade tardia

Noite quente de outono, Dona Solange se recolhe mais cedo para o quartinho abafado da pensão onde mora. Sobe as escadas, carregada de sacolas. A rua movimentada, o trânsito caótico, o barulho dos carros, a música alta do bar em frente, tudo isso a aborrece e faz com que feche a janela. Sente-se sufocar, um pouco pelo calor fora de época, outro pela decisão que tomara. Deita, sem tirar os sapatos, sobre os velhos lençóis que trouxera da casa da mãe. A luz suave do abajur desenha estranhas formas na parede que a remetem a seus medos e sonhos. Pensara em casar cedo, ter filhos, um marido carinhoso. Mas o marido não apareceu, os filhos muito menos, a vida não quis assim. Com mais de quarenta anos, na verdade, às vésperas de completar quarenta e cinco, e ainda virgem, continuava pensando em ter um companheiro. Nem precisava ser tão carinhoso, apenas uma presença que deixasse suas noites menos solitárias.  
Amargando seus dias casa-escritório, escritório-casa, os desmandos do patrão, o salário baixo, nunca deixara de procurar um bom partido. Em todos os lugares. Parques, praças, academias de ginástica.  Livrarias, museus. Encontro de amigos, trabalho. Até no supermercado ela esperava encontrar alguém.
Foi lá que, dia desses, enquanto fazia suas compras, Dona Solange pensa na conversa que tivera  no escritório:
- Quem sabe na seção de vinhos? As colegas dizem que ali é um bom lugar para encontrar pessoas. Mas e se encontrasse um alcoólatra? Não, melhor não. Quem sabe na seção de congelados?
 Nesse momento , Lourival aproximou-se.. Já havia percebido sua presença na pensão, era hóspede novo. Simpático, um pouco mais jovem que ela, bom papo. Conversaram, compraram queijos e vinhos, marcando para depois do jantar, no quarto dele. Preocupada com a virgindade tardia, Dona Solange não conseguiu passar das preliminares e voltou à sua cama e aos velhos lençóis da casa da mãe. Os encontros se repetiram. Ela começou a sorrir mais, ele descia as escadas cantarolando, os olhares cruzando-se na mesa do café. Os outros moradores também sorriam e cochichavam entre si, percebendo tudo. Lourival, paciente, esperava o tempo da mulher, embora estranhasse sua demora em permitir maiores intimidades.
Hoje, Dona Solange não passou no supermercado. Foi ao shopping, comprou uma lingerie sensual e um J’adore para usar mais tarde. Comprou também lençóis, toalhas e travesseiros macios.  Decidiu que contaria a Lourival da sua virgindade , do medo que sentia e até do receio que ele zombasse dela.
 Levanta da cama e troca os lençóis. Toma um banho demorado, coloca a lingerie nova e o J’adore   na nuca, derramando algumas gotas nos travesseiros. Olha-se no espelho com ar de aprovação, liga para ele e aguarda. Lourival bate à porta, com o espumante e as taças na mão.
De manhã, ao sair de casa, Dona Solange quase não acredita no que acontecera. Tinha sido muito melhor do que havia imaginado, mesmo em seus mais mirabolantes sonhos ou em suas tímidas tentativas de prazer solitário. Com a cabeça nas nuvens, desce saltitante os degraus até a calçada e atravessa a rua.
 Ouve-se um estrondo e ranger de freios.
 O motorista do ônibus não conseguiu parar a tempo.
 

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