quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Tio Elautério e a Democracia
                                                                                                                                                                                                                                                                 
Tio Elautério tinha uma visão de mundo muito particular. Principalmente em matéria de política. Votava somente em candidatos do seu partido, na época o PTB de  Vargas. Morávamos numa cidade pequena, na fronteira com o Uruguai. A época das eleições movimentava a cidade. Menina ainda, eu acompanhava meu tio aos comícios para  ver e ouvir os candidatos. E ele me dizia: “Esse é do PTB, é bom.Tomara que ele ganhe. Aquele outro é da UDN. Não presta. Agora, o pior é que , se ele ganhar vamos ter que aguentá-lo até a próxima eleição. O Presidente precisa cumprir o seu mandato - é a tal da  Democracia.”

Nas eleições de 1960 os candidatos a presidente eram o Jânio Quadros, o Ademar de Barros e  o Marechal Henrique Teixeira Lott. Tio Elautério  implicava com o Lott porque ele era militar e de outro partido. No entanto, como o vice era o João Goulart, do PTB, mesmo um pouco contrariado, votaria nele. Naquela época, diferente de hoje, as candidaturas a Presidente e Vice eram independentes
.
 Todos os candidatos visitavam a cidade em campanha política, o que era sempre um acontecimento  Junto com o tio fui até o campo da aviação ( hoje, aeroporto ), receber o Lott e o Jango. Passando na frente das pessoas, cheguei até o Lott, que me abraçou e disse: “Precisamos dos votos das moças do Brasil’. Sorri, pensando que eu não votaria nele  pois, muito jovem, não tinha Titulo de Eleitor  ainda. E, que o tio não me ouvisse, mas eu gostava mesmo era do Jânio com  a sua musiquinha:

 Varre, varre ,vassourinha
Varre,varre a bandalheira,
Que o povo já tá cansado
De viver dessa maneira.

Jânio ganhou as eleições.  Meu tio , firme em suas convicções, disse : “ Agora o Jânio é o Presidente. Pelo menos, tem o Jango de Vice. Vamos respeitar, não tem jeito. É a tal da Democracia.”
Só que  Jânio , antes de completar um ano de governo, renunciou ao Cargo . Foi um deusnosacuda para o Vice assumir. Leonel Brizola , governador do Rio Grande do Sul, liderou um movimento , a Legalidade, e  João Goulart assumiu a Presidência. Mas, não demorou muito tempo, o Presidente foi deposto , exilado, e começou o período sombrio da Ditadura Militar no nosso país , com seus desmandos e perseguições. Eleger outro Presidente? Nem pensar! E eu , que agora tinha idade para votar, não poderia fazê-lo. Meu tio não se conformava: “O Jango nem terminou o mandato e agora não tem eleições. Onde está a tal Democracia?  E tu, guria,que nunca votou?”

E passaram-se quase trinta anos até acontecerem eleições presidenciais novamente! Professora , já aposentada, junto com minha filha, nascida em plena Ditadura, em 1989 fomos votar para Presidente. Votei no Brizola,do antigo PTB, dedicando esse voto ao tio Elautério, que já não estava mais entre nós. Mas Brizola perdeu no primeiro turno. No segundo turno, votei no Lula, a quem Brizola  apoiava, embora  o chamasse de sapo barbudo. Lembrando do tio eu pensava: “Se ele ganhar, vamos ter que aguentá-lo – o Presidente precisa cumprir o seu mandato.”

O Lula não ganhou dessa vez, mas ganhou nas eleições seguintes. Seu partido manteve-se no poder até agora, quando a Presidente Dilma Rousseff foi afastada do  cargo para o qual foi  eleita pela maioria dos votos do povo brasileiro.

 Fico pensando no tio Elautério : “O Presidente precisa cumprir o seu mandato - é a tal da Democracia.”            



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