terça-feira, 20 de março de 2018


Caio agora


Só agora! Impressionante! Como vivi 75 anos sem conhecer Caio? Sei dos seus Morangos Mofados, mas nunca li. Sei alguma coisa de sua vida, que morava numa casa no Menino Deus, mas pouco mais que isso.
Começo a conhecer Caio agora, lendo suas Pequenas Epifanias. E entendi que todos temos nossas pequenas epifanias. Pequenas celebrações, pequenas conquistas, pequenas alegrias diárias que, muitas vezes, superam nossas tristezas mesmo que por alguns instantes.   
Encontro lembranças minhas nos textos de Caio. Algumas longínquas como o barquinho de papel que parece com o meu, deslizando na sarjeta, lá em Dom Pedrito, nas minhas brincadeiras de criança em dias de chuva. Nos meus pensamentos ele carregava o Soldadinho de chumbo para o seu encontro com a Bailarina de papel. Só que o meu Soldadinho e a Bailarina tinham um final feliz, não se transformavam em um coração de chumbo derretido. Que história mais triste essa, meudeus!
E a Tosse? Também para mim foi companheira inseparável por algum tempo. Quando ela chegava, vinha do nada, sem aviso, a qualquer hora. Por causa dela, quase fui expulsa do supermercado; outra vez saí do Guion na metade do filme . Agora, o mais chic foi em Paris, numa loja de perfumes na Rue de Rivoli. O acesso de tosse foi tal que a vendedora me encheu as mãos de balas e , falando par ici s’il vous plait ,madame foi  me conduzindo, gentilmente, à porta de saída. Minha amiga Madalena deve lembrar disso.  E por anos ela, a Tosse, vem e vai. A Tosse de Caio foi embora com ele. A minha voltará, infelizmente ela sempre volta. Sei agora que cada vez que eu tossir vou lembrar do Caio.
Como ele, eu também tinha uma caneta Parker 51 que manchava os dedos e a blusa branca do uniforme ou fazia um borrão no caderno, enfeando meus escritos. Como ele, nos meus textos eu também quero escrever vezenquando , não vezenquando, mas muitas vezes.
E , quem sabe, como Caio, um dia eu volto à Paris, e sento  num banco à beira do Sena, defronte à casa de Camille  Claudel , no Quai de Bourbon, 19, e também leio a placa “Il y a quelque chose d’absent qui me tourmente”.
Sim, Caio Fernando Abreu, alguma coisa sempre nos faz falta. Te ler estava me fazendo falta.    


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