quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015




Lembranças do tempo e do vento

O programa na tevê levou seu pensamento para muitos anos atrás.
Tarde quente de verão, parecendo mais quente ainda, ao olhar os desenhos que o sol desenhava nas sombras das  folhas das árvores no pátio de casa. Mãe e pai sesteando, os irmãos brincando com ossinhos lá no galpão, que faziam as vezes de  rebanhos de ovelhas, ou “botando as vacas”, como se dizia naqueles tempos.
 A guria pensava -- “que chato, nada para fazer, será que a vó não vem hoje para o café da tarde?” Tão bom quando a vó chegava, tão bonita, ela mesma guiando a aranha puxada pela égua tordilha. Gostava da vó, do seu sorriso doce, seu rosto enrugado, seu cabelo grisalho trançado, as tranças fazendo um coque que a vó penteava quase sem se olhar no espelho. Sempre trazia um pão feito em casa, formato de boneco com olhos de feijão preto – “não come o feijão, guria, é só de enfeite.”
Mas hoje a vó não vem. Com o calor, ela não aguenta os cinco quilômetros de estrada  –  mas cinco quilômetros é perto, não dá nem uma légua -- o tio disse que a avó anda cansada.”
Na tevê segue o programa, diz que estão fazendo um filme lá pros lados de Bagé, aproveitando a paisagem das coxilhas na fronteira com o Uruguai. O pensamento voa, a avó olha o neto, e lembra as brincadeiras nas ruas da cidade pequena.
 Naquele tempo, as ruas não tinham calçamento. Nem calçadas havia. A criançada brincava de “bicho”. --  Mas o que é “bicho”?  pergunta o neto.  --  Ora, bicho é o mesmo que brincar de “ pegador” , como tu brincas na colégio.
E o guri: -- vamos brincar de carrinho, vó, vem. E ela vai, esquece de ver o que vão dizer sobre o filme, afinal ela já sabe toda a história do capitão Rodrigo, já leu todos os livros do Érico Veríssimo.
Voltando ao passado, pensa na sua avó com seu coque grisalho guiando a aranha  puxada pela égua tordilha,levando bonecos de pão com olhos de feijão para agradar os netos.  
É o tempo e o vento e o vento e o tempo.

E as histórias de avós e netos que se perdem no vento e se repetem no tempo.



Crônica escrita em 2013. Estava perdida, hoje encontrei e aqui está. Para quem não sabe, "aranha" é uma espécie de charrete com as rodas altas e um banco só.  

6 comentários:

  1. Muito obrigada, fico feliz de ter t proporcionado essa viagem!!
    Beijos!!

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  2. Oi Dora, tudo bem? Minha mãe, Elaine, pediu para eu tentar encontrar você na Internet e achei o seu blog. Ela sempre lembra de você e de sua filha com muita saudade, e queria notícias! :) Um abraço! Ana Paula

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  3. Ana Paula filha da Elaine e do Rubem? Acho que não estou enganada, se estiver me esclarece. Fiquei feliz que me acharam aqui. Meu email"dobialmeida@gmail.com e Dora Almeida no facebook. Aguardo mais detalhes. Por acaso moram em Porto Alegre? Beijos,,,

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  4. Oi Dora! Sim, sou a filha da Elaine e do Rubem. Minha mãe vai mandar um e-mail para você! Um abraço,
    Ana Paula

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