O sorriso de Olga
Não há nada mais antigo do que ser contra o
sereno. (Antônio Maria)
Olga retira, silenciosa, a louça do jantar. Põe as crianças para dormir
e olha a calçada úmida, iluminada pela luz amarela do poste. Pega o cesto da
costura e senta na sala, ao lado do marido que fuma e escuta o Repórter Esso.
Tudo igual. As especulações sobre o crime da Rua Toneleros, o Lacerda acusando
a polícia do Getúlio, a moça que apareceu morta na praia, as notícias de moda,
o que vai se usar na primavera.
“Preciso comprar uns figurinos
novos para as freguesas escolherem os modelos”, pensa enquanto ouve a tosse do
marido.
“Para mim, a morte do Major Vaz é coisa do Gregório” -- resmunga
Laurentino, olhando a mulher curvada sobre o chuleado do tomara-que-caia da moça que mora no andar de cima. Observa-lhe o
rosto magro, com os traços ainda belos daquela menina de sorriso de covinhas.
Será que ela ainda tem as covinhas? Há muito tempo Olga não sorri. Passa os
dias encurvada sobre a máquina de costura e as noites bordando os vestidos das
madames. Bem que ele gostaria de dizer para ela não trabalhar tanto, mas o
salário de funcionário público é pequeno. Sem o que ela ganha não dá para pagar
as contas do armazém, o colégio das crianças. Menos mal que não pagam aluguel,
morando no apartamento de dois quartos, no Centro, comprado pela mãe dela, há
muitos anos.
Olga responde qualquer coisa. Não se interessa por política, mas comenta
com o marido que viu n’O Cruzeiro o
retrato do Gregório penteando os cabelos do Presidente— se é coisa do Gregório,
será que o Getúlio não sabia?
--Vou comprar cigarros. Não demoro.
--Deixa para amanhã. Olha essa tosse!
-- Já disse, não vou demorar.
Mas ela sabe, e ele também, que
isso não é verdade. Sabe que ele não volta em seguida. Vai encontrar os amigos no bar. Laurentino não
consegue passar um dia sequer sem o tilintar dos copos, a cerveja, o
burburinho, a fumaça, a música. Lá ele se transforma. É outra pessoa. Esquece
os problemas, a mesmice do expediente na repartição. Às vezes até canta,
acompanhado pela moça loira de olhar lânguido e tristonho, com quem ele bebe uma
Cuba Libre: Ninguém me ama, ninguém me
quer, ninguém me chama de meu amor!
Sabe que ele volta pela
madrugada, naquela hora em que o sereno é mais forte. E ele sempre volta. Volta
para seus braços cansados, seu corpo magro e seu sorriso de covinhas no rosto.
Sorriso que ele não vê, mas que está sempre ali, quando ele chega.
-- Pelo menos pega o casaco, Laurentino! Cuidado com o sereno!
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