Lembranças do tempo e do vento
O programa na tevê levou seu
pensamento para muitos anos atrás.
Tarde quente de verão, parecendo mais quente ainda, ao olhar os desenhos
que o sol desenhava nas sombras das
folhas das árvores no pátio de casa. Mãe e pai sesteando, os irmãos brincando
com ossinhos lá no galpão, que faziam as vezes de rebanhos de ovelhas, ou “botando as vacas”,
como se dizia naqueles tempos.
A guria pensava -- “que chato,
nada para fazer, será que a vó não vem hoje para o café da tarde?” Tão bom
quando a vó chegava, tão bonita, ela mesma guiando a aranha puxada pela égua tordilha.
Gostava da vó, do seu sorriso doce, seu rosto enrugado, seu cabelo grisalho
trançado, as tranças fazendo um coque que a vó penteava quase sem se olhar no
espelho. Sempre trazia um pão feito em casa, formato de boneco com olhos de
feijão preto – “não come o feijão, guria, é só de enfeite.”
Mas hoje a vó não vem. Com o calor, ela não aguenta os cinco quilômetros
de estrada – mas cinco quilômetros é perto, não dá nem uma
légua -- o tio disse que a avó anda cansada.”
Na tevê segue o programa, diz que
estão fazendo um filme lá pros lados de Bagé, aproveitando a paisagem das
coxilhas na fronteira com o Uruguai. O pensamento voa, a avó olha o neto, e lembra
as brincadeiras nas ruas da cidade pequena.
Naquele
tempo, as ruas não tinham calçamento. Nem calçadas havia. A criançada brincava
de “bicho”. -- Mas o que é “bicho”? pergunta o neto. -- Ora, bicho é o mesmo que brincar de “ pegador”
, como tu brincas na colégio.
E o guri: -- vamos brincar de
carrinho, vó, vem. E ela vai, esquece de ver o que vão dizer sobre o filme,
afinal ela já sabe toda a história do capitão Rodrigo, já leu todos os livros
do Érico Veríssimo.
Voltando ao passado, pensa na sua avó com seu coque grisalho guiando a aranha
puxada pela égua tordilha,levando
bonecos de pão com olhos de feijão para agradar os netos.
É o tempo e o vento e o vento e o
tempo.
E as histórias de avós e netos que se
perdem no vento e se repetem no tempo.
Crônica escrita em 2013. Estava perdida, hoje encontrei e aqui está. Para quem não sabe, "aranha" é uma espécie de charrete com as rodas altas e um banco só.
Gostei e viajei no tempo!
ResponderExcluirMuito obrigada, fico feliz de ter t proporcionado essa viagem!!
ResponderExcluirBeijos!!
Muito bom, Vó Dora.
ResponderExcluirOi Dora, tudo bem? Minha mãe, Elaine, pediu para eu tentar encontrar você na Internet e achei o seu blog. Ela sempre lembra de você e de sua filha com muita saudade, e queria notícias! :) Um abraço! Ana Paula
ResponderExcluirAna Paula filha da Elaine e do Rubem? Acho que não estou enganada, se estiver me esclarece. Fiquei feliz que me acharam aqui. Meu email"dobialmeida@gmail.com e Dora Almeida no facebook. Aguardo mais detalhes. Por acaso moram em Porto Alegre? Beijos,,,
ResponderExcluirOi Dora! Sim, sou a filha da Elaine e do Rubem. Minha mãe vai mandar um e-mail para você! Um abraço,
ResponderExcluirAna Paula