Prazo de validade
Maio,
mês do meu aniversário. O banco chama
para dar uma “prova de vida”. Preparo os documentos que o banco pede, conta de
luz,identificação. Examino a carteira de identidade. Ali estão todas as minhas informações:
nome, filiação, naturalidade, data de nascimento. Então observo que, como nas
caixinhas de remédio, data de nascimento é a data de fabricação. E me dou conta
que minha data de fabricação é muito antiga. Vejo ainda que ,ao contrário das
caixinhas de remédio, há uma informação que não consta nos documentos: o “prazo de validade”.
De
uns tempos para cá, desconfio que o meu
está chegando. Mais ainda, que já chegou e não é de hoje.
No
dia do meu aniversário,todo mundo me
abraçou e falou:
- Saúde! Muita saúde!
Quando alguém te deseja “saúde”, pode ficar
certo: o prazo de validade já está vencendo. Ou tu ouvirias:
- Muito amor , sucesso, muitas felicidades!
Outro
indício que o prazo está no final é quando subestimam a tua inteligência. Ou a
tua capacidade de aprender coisas novas. Outro dia encontrei uma antiga cabeleireira. Conversa
vai, conversa vem,peço seu telefone e pego o celular para anotá-lo. A moça ,
delicadamente, me toma o aparelho das mãos e diz:
-
Deixa que eu anoto para ti. Deves ser daquelas que não sabe anotar números no
celular.
Apaguei
o telefone dela.
E quando
as pessoas começam a te dar conselhos de
todo tipo? Prazo vencendo! E olha que não pediste conselho nenhum!
Mas elas insistem:
- Precisas
tomar dois litros d’água por dia.
- Por
que não fazes um serviço voluntário?
- Deverias
ir aos bailes da terceira idade.
- Não
fazes palavras cruzadas?
Ou
então:
- A
senhora deveria ter um perfil no Facebook. Peça para sua filha fazer um.
E
quando acham que já não podemos ir a determinados lugares? Tenho uma amiga que
escandalizou a família quando foi assistir “Cinquenta tons de cinza”. O filme
era impróprio para a idade dela. Seguramente, minha amiga está fora do prazo de
validade.
Isso tudo sem falar nas dores, nos males que
te levam aos consultórios médicos, às aulinhas de hidroginástica, às clinicas
de fisioterapia.
Uma
noite destas a fisioterapeuta me encontra no Apolinário, à noite, e diz:
- A
senhora por aqui? O que faz a esta hora no boteco?
Pensei em dizer que resolvi sair porque perdi
a agulha de crochê, que não consegui encontrar meus chinelinhos, que o sinal da
NET caiu e não deu para ver a novela ou
que vim encontrar um amante argentino.E o joelho, hoje, afinal nem está
doendo tanto!
Mas
não. Resolvo explicar que participo de
uma Oficina Literária. Ela sorriu, mas me olhou de um jeito estranho que me fez
pensar que eu estava no lugar errado. Complexo de inferioridade, a esta altura
da vida? Ou é o bendito prazo que está vencendo?
Semana
passada um casal de vizinhos comentou comigo que a filha tinha me visto no bar.
-
Eras tu mesma? Fazes parte da Oficina Literária?
Digo
que sim. Embora surpresos eles sorriem, educados e gentis que são. Conhecem a Oficina.
Têm um amigo que participa do projeto.
Então
decido:
- Vou esquecer desse prazo de validade. Vai ver
ele já chegou e estou na prorrogação.
Guardo
os documentos na bolsa, olho no espelho e coloco um batom carmim. Ensaio um
sorriso e me dirijo ao banco para mostrar ao gerente o quanto estou viva.
Nenhum comentário:
Postar um comentário