A virgem de quarenta
Virgindade tardia
Noite quente de outono, Dona
Solange se recolhe mais cedo para o quartinho abafado da pensão onde mora. Sobe
as escadas, carregada de sacolas. A rua movimentada, o trânsito caótico, o
barulho dos carros, a música alta do bar em frente, tudo isso a aborrece e faz
com que feche a janela. Sente-se sufocar, um pouco pelo calor fora de época,
outro pela decisão que tomara. Deita, sem tirar os sapatos, sobre os velhos
lençóis que trouxera da casa da mãe. A luz suave do abajur desenha estranhas
formas na parede que a remetem a seus medos e sonhos. Pensara em casar cedo,
ter filhos, um marido carinhoso. Mas o marido não apareceu, os filhos muito
menos, a vida não quis assim. Com mais de quarenta anos, na verdade, às
vésperas de completar quarenta e cinco, e ainda virgem, continuava pensando em
ter um companheiro. Nem precisava ser tão carinhoso, apenas uma presença que
deixasse suas noites menos solitárias.
Amargando seus dias
casa-escritório, escritório-casa, os desmandos do patrão, o salário baixo, nunca
deixara de procurar um bom partido. Em todos os lugares. Parques, praças,
academias de ginástica. Livrarias,
museus. Encontro de amigos, trabalho. Até no supermercado ela esperava
encontrar alguém.
Foi lá que, dia desses, enquanto
fazia suas compras, Dona Solange pensa na conversa que tivera no escritório:
- Quem sabe na seção de vinhos?
As colegas dizem que ali é um bom lugar para encontrar pessoas. Mas e se
encontrasse um alcoólatra? Não, melhor não. Quem sabe na seção de congelados?
Nesse momento , Lourival aproximou-se.. Já havia percebido
sua presença na pensão, era hóspede novo. Simpático, um pouco mais jovem que
ela, bom papo. Conversaram, compraram queijos e vinhos, marcando para depois do
jantar, no quarto dele. Preocupada com a virgindade tardia, Dona Solange não
conseguiu passar das preliminares e voltou à sua cama e aos velhos lençóis da
casa da mãe. Os encontros se repetiram. Ela começou a sorrir mais, ele descia
as escadas cantarolando, os olhares cruzando-se na mesa do café. Os outros moradores
também sorriam e cochichavam entre si, percebendo tudo. Lourival, paciente, esperava
o tempo da mulher, embora estranhasse sua demora em permitir maiores
intimidades.
Hoje, Dona Solange não passou no
supermercado. Foi ao shopping, comprou uma lingerie sensual e um J’adore para usar mais tarde. Comprou
também lençóis, toalhas e travesseiros macios. Decidiu que contaria a Lourival da sua
virgindade , do medo que sentia e até do receio que ele zombasse dela.
Levanta da cama e troca os lençóis. Toma um
banho demorado, coloca a lingerie nova e o J’adore na nuca, derramando algumas gotas nos
travesseiros. Olha-se no espelho com ar de aprovação, liga para ele e aguarda.
Lourival bate à porta, com o espumante e as taças na mão.
De manhã, ao sair de casa, Dona Solange
quase não acredita no que acontecera. Tinha sido muito melhor do que havia
imaginado, mesmo em seus mais mirabolantes sonhos ou em suas tímidas tentativas
de prazer solitário. Com a cabeça nas nuvens, desce saltitante os degraus até a
calçada e atravessa a rua.
Ouve-se um estrondo e ranger de freios.
O motorista do ônibus não conseguiu parar a
tempo.
Adorei, Dora! Continua escrevendo! Beijos!
ResponderExcluirObrigada, Lourdes!
ResponderExcluirSe a senhora Kauffmann gostou, acredito!
Beijos!