O acidente
Daiane não era muito religiosa. Era do tipo que vai à igreja
só em batizados, casamentos e missas de sétimo dia. Também não sabia muitas
orações, a não ser o Pai Nosso e a Ave Maria . A Salve Rainha, por exemplo, que
aprendera no colégio das freiras,esquecera por completo. Agora, a oração para Santo
Antônio ela sabia muito bem:
Se milagres desejai,
recorrei a Santo Antônio. Vereis fugir o demônio e as tentações infernais.
É bem verdade que ela só rezava a primeira frase, pois não dava muita importância ao demônio. Também
não estava certa se queria fugir das tentações infernais. Desconfiava mesmo que
talvez fosse interessante experimentar uma “tentação infernal”. De qualquer
modo, todas as noites rezava para o Santo
e lhe pedia um marido. Não precisava ser
bonito nem rico, mas deveria ser gentil
e carinhoso e apreciar um poema de
Drummond.
Trabalhando numa empresa financeira, tinha mais colegas
homens do que mulheres. Alguns muito
atraentes, solteiros até, embora nenhum deles chegasse nem perto do homem dos
seus sonhos. Ela desconfiava que sabiam de Drummond só o nome e que
desconheciam suas poesias. Eram especialistas apenas sobre o índice
da Bolsa, a alta do dólar, indicadores macroeconômicos, assuntos monótonos para
Daiane, embora fizessem parte do seu dia a dia. Mas saíam muitas vezes para um happy hour e a conversa, invariavelmente,
era sobre o trabalho. Uma chatice, mas ela ia, um pouco para se distrair e
também para, quem sabe, conhecer novas pessoas.
Numa noite dessas, Daiane foi com eles a um bar recém
inaugurado, do outro lado da cidade. Lugar lindo, aconchegante, boa comida, boa música, o vinho na temperatura
ideal. Serviço perfeito. E, o melhor de tudo, nessa noite,deu sorte – conheceu
Antônio Carlos. Sorriso franco, boa conversa , sensível e, inacreditável, conhecia
e até sabia de cor muitas poesias de Drummond.
Entre um cálice e outro, Antônio Carlos recitava :
Quando nasci .um anjo torto,
desses que vivem na sombra,disse:
Vai , Carlos, vai ser
gauche na vida.
Daiane estava nas nuvens. Nem acreditava no que estava
acontecendo.
Na saída,a noite de
lua cheia convidava para um passeio pela calçada. Ao atravessarem a rua,um carro aproximava-se
em alta velocidade. Ela só teve tempo de dizer “ se milagres desejai ”,
e mais nada. Quando viu, estava
do outro lado da rua. O impacto da batida fora muito forte.
Daiane levanta, apenas
uns arranhões, nenhuma fratura e termina a oração: recorrei a Santo Antônio. Ela corre para o lado de Antônio Carlos,
que continua caído no chão. Ele esboça
um sorriso e, antes de fechar os olhos, termina o verso de Drummond:
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido
como o diabo.
Crônica escrita para a Oficina Literária " A Persistência do amor" , do escritor Rubem Penz,em homenagem a Paulo Mendes Campos.
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