segunda-feira, 13 de junho de 2016



O acidente
                                                                                                                                                 
Daiane não era muito religiosa. Era do tipo que vai à igreja só em batizados, casamentos e missas de sétimo dia. Também não sabia muitas orações, a não ser o Pai Nosso e a Ave Maria . A Salve Rainha, por exemplo, que aprendera no colégio das freiras,esquecera por completo. Agora, a oração para Santo Antônio ela sabia muito bem:
Se milagres desejai, recorrei a Santo Antônio. Vereis fugir o demônio e as tentações infernais.   
É bem verdade que ela só rezava a primeira frase, pois  não dava muita importância ao demônio. Também não estava certa se queria fugir das tentações infernais. Desconfiava mesmo que talvez fosse interessante experimentar uma “tentação infernal”. De qualquer modo, todas  as noites rezava para o Santo e lhe pedia um marido. Não precisava ser bonito nem rico, mas deveria ser  gentil e carinhoso e apreciar  um poema de Drummond.
Trabalhando numa empresa financeira, tinha mais colegas homens  do que mulheres. Alguns muito atraentes, solteiros até, embora nenhum deles chegasse nem perto do homem dos seus sonhos. Ela  desconfiava que  sabiam de Drummond só o nome e que desconheciam suas poesias. Eram especialistas apenas sobre o   índice da Bolsa, a alta do dólar, indicadores macroeconômicos, assuntos monótonos para Daiane, embora fizessem parte do seu dia a dia.  Mas saíam muitas vezes para um happy hour e a conversa, invariavelmente, era sobre o trabalho. Uma chatice, mas ela ia, um pouco para se distrair e também para, quem sabe, conhecer novas pessoas.
Numa noite dessas, Daiane foi com eles a um bar recém inaugurado, do outro lado da cidade. Lugar lindo, aconchegante,  boa comida, boa música, o vinho na temperatura ideal. Serviço perfeito. E, o melhor de tudo, nessa noite,deu sorte – conheceu Antônio Carlos. Sorriso franco, boa conversa , sensível e, inacreditável, conhecia e até sabia de cor muitas poesias de Drummond.
Entre um cálice e outro, Antônio Carlos recitava :

Quando nasci .um anjo torto, desses que vivem na sombra,disse:
Vai , Carlos, vai ser gauche na vida.

Daiane estava nas nuvens. Nem acreditava no que estava acontecendo.
 Na saída,a noite de lua cheia convidava para um passeio pela calçada.  Ao atravessarem a rua,um carro aproximava-se em alta velocidade. Ela só teve tempo de dizer “ se milagres desejai ”,  e  mais nada. Quando viu, estava do outro lado da rua. O impacto da batida fora muito forte.
Daiane levanta, apenas uns arranhões, nenhuma fratura e termina a oração: recorrei a Santo Antônio. Ela corre para o lado de Antônio Carlos, que continua caído no chão. Ele esboça  um sorriso e, antes de fechar os olhos, termina o verso de Drummond:

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.



Crônica escrita para a Oficina Literária " A Persistência do amor" , do escritor Rubem Penz,em homenagem a Paulo Mendes Campos.

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