Esta crônica é da autoria de Giancarlo Carvalho, complementando a minha crônica “Prazo de validade”, escrita na Oficina Literária do professor Rubem Penz, na qual somos participantes.
Muito obrigada, Giancarlo. Eu realmente amei este texto.
Texto off-cina, para a Dorinha:
Vovó Dora, Dora, Dorinha.
..
De frente do gerente do banco, Vovó Dora expõe os documentos pedidos: carteira de identidade, conta de luz, telefone, etc, etc. O olhar inteligente, vívido como o batom que usava, mirava o sisudo homem do outro lado da mesa.
- Prova de vida, certo? perguntou ele. Trouxe tudo? E, só prá garantir, a senhora está viva mesmo? - e solta um sorriso sem convicção. Desculpe, piadinha da casa, prá descontrair.
- Sem problemas, meu jovem, já vi e ouvi de tudo nessa vida. Inclusive piadas sem graça. A sua foi infame, mas boazinha, por isso vou sorrir, para confirmar que sim, estou viva. E abre um sorriso belo, cínico, alegre e conciliador.
- Ok, continuou o homem, sem graça como a própria gravata destoante. Desculpe, mas o tipo de conta da senhora exige essa formalidade. Temos conta jovem, conta normal e conta idosos, que é seu caso. Enfim, como anda essa vida?
- Tenho viajado muito, participado de atividades, físicas e intelectuais, teatro, academia, coisas assim, sabe?. Saio com os amigos, participo de uma Oficina Literária - num bar, diga-se de passagem -, papeio bastante pelo Facebook, já que o Orkut morreu antes da hora (e antes de mim, como podes ver). Vou ao cinema constantemente, até filme dito erótico eu assisti uns dias atrás. Aliás, achei pudico e ruim demais… não mostra nada! Também visito meus médicos, por precaução, para ver se eles estão bem, vou à hidroginástica para esticar as pernas e, quando não dá para fazer pelo smartphone, vou ao banco, resolver probleminhas bobos e sem nexo. Como esse, por exemplo.
- Opa, a senhora teve, digo, tem uma vida agitada, então - retruca o homem, fingindo que não ouvira o fim da frase.
- Sim, meu filho. Tenho sim. Mas fiz tudo isso nessa semana. E amanhã ainda é sexta, né?
Do lado de fora do banco, Dora abre a a sombrinha - para manter a pele bonita - e em seguida tira da bolsa o cartão novo que recebera do gerente. É mais bonito que o anterior, pensa. O nome no lado direito a agrada: “conta jovem”. A inscrição logo abaixo do seu nome, do lado direito, embaixo, também: “validade: muito tempo ainda”.
E, junto com um suspiro gostoso, cheio de saúde, Dorinha entrega para o dia mais um daqueles sorrisos cor de carmim, vívidos e radiantes. E segue para casa, pois tinha uma bela caminhada pela frente.
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