Vida, verão, traição*
Sabe aquele casal apaixonado? Que está sempre grudado, aos
beijos e abraços? Pois assim eram o Alfredo e a Lurdinha. Um chamego só. O
Alfredo cobrindo a Lurdinha de agrados, a Lurdinha só tinha olhos para o
Alfredo. A vida deles parecia coisa de cinema, um filme de final feliz.
Naquele verão de 83, a Lurdinha foi passar uma semana em
Cidreira com um grupo de amigos. Era a primeira vez que se separavam depois do
casamento. O Alfredo não teria férias nesse ano, não era justo a Lurdinha
deixar de ir à praia. Ela adorava um sol e um banho de mar. E o calor estava
quase insuportável.
Mas, passados três dias,
ela conseguiu uma carona e voltou para Porto Alegre, morrendo de saudade. –Vou
fazer uma surpresa para o Alfredinho.
Oito horas da noite, Lurdinha gira a chave na fechadura –
que estranho, o Alfredo no quarto a esta hora, bem na hora do Jornal Nacional
que ele não perde por nada deste mundo? — Abriu a porta de mansinho e se
deparou com a cena clássica, o Alfredo e a Neusa, sua melhor amiga, na cama! Na
sua cama! Esfregou os olhos, não acreditando no que via e gritou. Gritou tão
alto que toda a vizinhança ouviu e saiu para ver o que estava acontecendo.
--Calma, Lurdinha, não é o que tu estás pensando! -- Mas ela
foi empurrando os dois para fora da cama, do quarto, do apartamento, do jeito
que estavam. Foi um escândalo!
Nem precisa dizer que passou em claro a noite toda, chorando,
furiosa com os dois traidores.
Dia seguinte, decidida,
falou para as amigas:-- Vou contar tudo para o Juca, marido dela.
Apesar das opiniões contrárias, ela foi. —Pouco me importa
se ele é corno manso, se não der bola para a
traição da Neusa, mas que ele vai
ficar sabendo, ah, isso vai!
E o Juca ouviu tudo muito quieto, não pareceu surpreso, e
convidou-a para jantar, mais tarde, para conversarem melhor.
O tempo passou. A Lurdinha e o Juca começaram a sair, os
dois. Dentro de algum tempo casaram, tiveram uma filha, e estão juntos até
hoje.
Mas duma coisa Lurdinha não abre mão: -- sozinha na praia,
no verão, nunca mais!
O Alfredo e a Neusa? Pois não é que também vivem juntos até agora?
Como o “Quatrilho” , esta história também é “baseada em
fatos reais”.
E fica a questão:” a Arte imita a Vida ou a Vida imita a
Arte?”
* Crônica escrita na Oficina Literária "Porto Alegre soa assim" do Professor Rubem Penz
* Crônica escrita na Oficina Literária "Porto Alegre soa assim" do Professor Rubem Penz
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