domingo, 26 de janeiro de 2014


Vida, verão, traição* 

Sabe aquele casal apaixonado? Que está sempre grudado, aos beijos e abraços? Pois assim eram o Alfredo e a Lurdinha. Um chamego só. O Alfredo cobrindo a Lurdinha de agrados, a Lurdinha só tinha olhos para o Alfredo. A vida deles parecia coisa de cinema, um filme de final feliz.

Naquele verão de 83, a Lurdinha foi passar uma semana em Cidreira com um grupo de amigos. Era a primeira vez que se separavam depois do casamento. O Alfredo não teria férias nesse ano, não era justo a Lurdinha deixar de ir à praia. Ela adorava um sol e um banho de mar. E o calor estava quase insuportável.

 Mas, passados três dias, ela conseguiu uma carona e voltou para Porto Alegre, morrendo de saudade. –Vou fazer uma surpresa para o Alfredinho.

Oito horas da noite, Lurdinha gira a chave na fechadura – que estranho, o Alfredo no quarto a esta hora, bem na hora do Jornal Nacional que ele não perde por nada deste mundo? — Abriu a porta de mansinho e se deparou com a cena clássica, o Alfredo e a Neusa, sua melhor amiga, na cama! Na sua cama! Esfregou os olhos, não acreditando no que via e gritou. Gritou tão alto que toda a vizinhança ouviu e saiu para ver o que estava acontecendo.

--Calma, Lurdinha, não é o que tu estás pensando! -- Mas ela foi empurrando os dois para fora da cama, do quarto, do apartamento, do jeito que estavam. Foi um escândalo!   

Nem precisa dizer que passou em claro a noite toda, chorando, furiosa com os dois traidores.

 Dia seguinte, decidida, falou para as amigas:-- Vou contar tudo para o Juca, marido dela.

Apesar das opiniões contrárias, ela foi. —Pouco me importa se ele é corno manso, se não der bola para a   traição da Neusa, mas que ele vai ficar sabendo, ah, isso vai!

E o Juca ouviu tudo muito quieto, não pareceu surpreso, e convidou-a para jantar, mais tarde, para conversarem melhor.

O tempo passou. A Lurdinha e o Juca começaram a sair, os dois. Dentro de algum tempo casaram, tiveram uma filha, e estão juntos até hoje.

Mas duma coisa Lurdinha não abre mão: -- sozinha na praia, no verão, nunca mais!

O Alfredo e a Neusa? Pois não é que também vivem juntos até agora?

Como o “Quatrilho” , esta história também é “baseada em fatos reais”.

E fica a questão:” a Arte imita a Vida ou a Vida imita a Arte?”  


* Crônica escrita na Oficina Literária "Porto Alegre soa assim" do Professor Rubem Penz    


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