domingo, 26 de janeiro de 2014


      Sonho de verão *

             Da janela do apartamento ela olha a cidade. A vista é linda, dá para ver o sol se pondo todos os dias, e é sabido que o pôr-do-sol do Guaíba é um espetáculo. Hoje ela espera ansiosa por esse momento. Não para admirar as cores do céu no entardecer, com as nuvens formando quase um quadro impressionista, que isso ela nem nota. Na verdade, anseia pela chegada da noite — quem sabe sopre uma brisa e diminua esse calor infernal.

       Olha a rua calma, com pouco trânsito nesta hora, mês passado tão movimentada, cheia de carros – culpa da Dilma, com a ascensão da classe C aos bens de consumo, todo mundo tem carro.  Menos ela, que veio do centro de ônibus.

       Na calçada, pessoas com ar cansado, donas de casa com sacolas do Zaffari, mães com filhos pequenos vindo da creche – compra um picolé, mãe – os advogados do escritório ao lado, com o paletó no braço e a gravata na mão, que ninguém é de ferro para aguentar casaco com esse calor.

        Até que não dá para se queixar, o ônibus não estava lotado e o ar condicionado funcionava bem – pensa ela, tomando o suco que a mãe havia deixado na geladeira – e o chefe estava bonzinho hoje, até elogiou o meu relatório.

        Bem que eu podia estar na praia, pelo menos são estaria neste calor senegalesco, como diz o vizinho do 402. Mas agora não dá, férias só no Carnaval – ela pensa – indo em direção ao quarto. E as aulas começam cedo este ano, por causa da Copa. Ainda bem que é o último ano da faculdade, trabalhar e fazer o TCC não vai ser fácil. Se eu pudesse ir para a praia, pelo menos um fim-de-semana!

        Tira a roupa de trabalho, veste um short azul curtinho, escolhe uma camiseta sem mangas, bem fresquinha, como diz a avó, amarra num rabo de cavalo os longos cabelos castanhos, com mechas californianas. Olha o espelho, com ar de aprovação, checando as mensagens no Facebook e convidando a amiga para uma “caminhadinha”. – Quem sabe a gente encontra o Marcelo e o Guto na Redenção?

       E as duas dão duas voltas no espelho d’água, -- que tal uma água de coco?  

       -- Copo grande ou pequeno, amada? -- pergunta a moça da água de coco. Ela chama todo mundo de amada, um sarro.

       E sentam num banco, observando as pessoas no parque. Todo mundo parece mais feliz agora, que sopra uma brisa leve, gostosa.

        -- Será que os guris vão pra Capão amanhã?

        E falam das delícias de estar na praia e de como sofrem por estar aqui neste “Forno Alegre”. A cidade ilumina-se para a noite, os bares da Cidade Baixa, pouco a pouco começam a lotar, Os garçons atendendo os pedidos – um chope, por favor! Mais um!

         As meninas, agora no bar: -- Ei, olha lá, o Marcelo e o Guto.

         --E aí, gurias, vamos pra Capão amanhã? A mãe liberou o apartamento.

         Pronto, assunto resolvido, nada como um fim-de-semana na praia. Trânsito congestionado? Areia suja? Praia lotada? Que importa?

        Segunda-feira no escritório: -- Como estás bronzeada!

         -- Fui para a praia com o Marcelo! O mar estava uma delícia, a água um pouco escura, é verdade, mas a cervejinha gelada e o Marcelo me passando protetor solar...não tem preço! Estou louca que chegue sexta-feira!

* Crônica escrita na Oficina Literária "Porto Alegre soa assim" , do professor Rubem Penz

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