domingo, 26 de janeiro de 2014

         A primavera acaba *
A primavera acaba. Acaba no vento que desmancha os cabelos cacheados da menina. Vento que balança a cortina cor-de-rosa da janela da menina morena, morena rosa, cheirosa, de   face rosada.    Nas flores dos jacarandás que deixam um tapete lilás entre os livros da praça, a primavera acaba. Acaba na mesma praça com a volta dos livros para as livrarias. Acaba com o sino que avisa que eles, os livros, saem da praça onde autores e leitores partilham histórias, poesia, ilusão e vida.
 A primavera acaba. Acaba nas primeiras flores do flamboyant que promete um tapete novo, agora vermelho, para o jardim da velha senhora que abre a janela para olhar o tempo no passar das horas. Tempo este que deixa dias mais longos, tardes compridas, preguiçosas, anunciando o verão.
  A primavera acaba. Acaba na chuva que desmancha o tapete de flores do jardim da velha senhora, que deixa a grama mais verde, mas também enche o rio. A primavera acaba. Acaba na lágrima da mãe e no choro da criança que perde a casa que o rio levou. Acaba na promessa do telhado novo da casa nova do emprego novo do novo lugar para viver.
 A primavera acaba. Acaba com o sol, agora mais quente, ardido nas costas da menina morena, morena rosa, cheirosa, de braços desnudos, carregando a mochila, indo para a escola, fazendo escolhas.
A primavera acaba. Acaba no domingo, dia de almoço na casa da mãe, de caminhada no parque, na beira do rio. Domingo de Gre-Nal, com a bola rolando e a torcida em delírio azul e vermelho.  
         A primavera acaba, mas acaba de leve, devagarinho, quase ninguém nota. Às vezes nem acaba. Continua, verão afora, no seu colorido de cores sem fim, no seu perfume de lavanda e violeta, de cravo e de rosa, anunciando o verão. Acaba com o joão-de-barro na porta da casa que ele fez para a amada, no ninho do sabiá no alto da árvore e no bando de papagaios que cruza os ares e que até param na janela, naquela janela de cortina rosa da menina morena, morena rosa, cheirosa, de face rosada.



* Crônica escrita na Oficina Literária "Porto Alegre soa assim", do Professor Rubem Penz

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