A primavera acaba *
A primavera acaba. Acaba no vento que
desmancha os cabelos cacheados da menina. Vento que balança a cortina
cor-de-rosa da janela da menina morena, morena rosa, cheirosa, de face
rosada. Nas flores dos jacarandás que deixam um tapete
lilás entre os livros da praça, a primavera acaba. Acaba na mesma praça com a
volta dos livros para as livrarias. Acaba com o sino que avisa que eles, os
livros, saem da praça onde autores e leitores partilham histórias, poesia,
ilusão e vida.
A primavera acaba. Acaba nas primeiras flores
do flamboyant que promete um tapete
novo, agora vermelho, para o jardim da velha senhora que abre a janela para
olhar o tempo no passar das horas. Tempo este que deixa dias mais longos,
tardes compridas, preguiçosas, anunciando o verão.
A primavera acaba. Acaba na chuva que desmancha o tapete de flores do
jardim da velha senhora, que deixa a grama mais verde, mas também enche o rio.
A primavera acaba. Acaba na lágrima da mãe e no choro da criança que perde a
casa que o rio levou. Acaba na promessa do telhado novo da casa nova do emprego
novo do novo lugar para viver.
A primavera acaba. Acaba com o sol,
agora mais quente, ardido nas costas da menina morena, morena rosa, cheirosa,
de braços desnudos, carregando a mochila, indo para a escola, fazendo escolhas.
A primavera acaba. Acaba no domingo,
dia de almoço na casa da mãe, de caminhada no parque, na beira do rio. Domingo
de Gre-Nal, com a bola rolando e a torcida em delírio azul e vermelho.
A
primavera acaba, mas acaba de leve, devagarinho, quase ninguém nota. Às vezes
nem acaba. Continua, verão afora, no seu colorido de cores sem fim, no seu
perfume de lavanda e violeta, de cravo e de rosa, anunciando o verão. Acaba com
o joão-de-barro na porta da casa que ele fez para a amada, no ninho do sabiá no
alto da árvore e no bando de papagaios que cruza os ares e que até param na
janela, naquela janela de cortina rosa da menina morena, morena rosa, cheirosa,
de face rosada.
* Crônica escrita na Oficina Literária "Porto Alegre soa assim", do Professor Rubem Penz
* Crônica escrita na Oficina Literária "Porto Alegre soa assim", do Professor Rubem Penz
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