sexta-feira, 11 de outubro de 2013




Histórias de avós




O relógio da Maria Luiza


Dizem que existe um relógio biológico que avisa as mulheres quando está na hora, ou quase passando da hora de ter um filho. Acontece com a maioria quando, por volta dos trinta e cinco anos, às vezes mais, às vezes menos, ainda não são mães.
Mas e as avós? Maria Luiza, na metade da casa dos sessenta, pensava se o tal relógio não funcionava também com as avós. Não que ela fosse do tipo chinelinho, coque, cadeira de balanço e tricô.  Não era isso tudo, mas, quando caminhava no parque e via uma avó levando o neto para brincar na pracinha, dava uma vontade de empurrar também um carrinho de bebê, do seu bebê, claro.
_Será que vou fazer parte do “Clube dos sem netos”, o clube que o Moacyr Scliar falava  sempre nas suas crônicas? _O tal clube, segundo Moacyr, era lotado de gente importante, mas e daí? O relógio da Maria Luiza, na tecla soneca, não parava de tocar.
Maria Luiza, uma avó do terceiro milênio, aposentada, sem maiores compromissos, entre outras atividades,ia às aulas do curso de línguas, ao cinema, às aulinhas de hidroginástica, lia bastante, fazia também seus trabalhinhos em tricô, crochê, patchwork. Até escultura Maria Luiza fazia. Sua professora de escultura falou que ela "levava jeito". Não perdia um dedo de prosa ( frase bem antiga esta) com a vizinhança ou um chimarrão com as amigas nos finais de tarde. O genro dizia que Maria Luiza era uma “executiva do lazer”.
Numa dessas tardes a filha chegou e disse: _” Vais realizar o teu sonho, vovó! Vais ter um neto lindo, e será um menino.” E Maria Luiza correu, providenciou roupinhas, chamou os amigos, avisou todo mundo. E, quando a filha chegou com o bebezinho no colo, a emoção foi a mesma do dia em que a filha nasceu.
 O relógio da Maria Luiza agora nem desperta mais, o guri acorda a vó com o seu riso ou a sua gritaria, que Maria Luiza adora.
 Vó é mesmo para mimar os netos, sabendo que há uma nova geração para continuar a sua história.

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