De amor e
ciúmes
Haverá horas
lentas de ciúmes, e um silêncio angustiado
sufocará as
palavras que nos fariam negociar o perdão.
Observo
disfarçadamente enquanto ela se arruma para sair. Vejo que veste a camisa
branca de seda sobre o jeans justinho, inclina o pescoço para colocar as
argolas douradas que lhe dei de aniversário. Senta na beira da cama e calça as
sandálias de saltos altíssimos. No espelho, sombra nos olhos, batom vermelho e
o Light and Blue atrás das orelhas. Está linda, mas toda essa beleza, hoje, não
é para mim. Sinto sufocar meu peito pensando nisso.
“Viste minha
bolsa?” Está aqui, meu bem. Mal sabe ela que eu já havia vasculhado sua bolsa,
checado as mensagens no seu celular. Será mesmo da amiga aquela mensagem
marcando um happy hour no Apolinário
agora à tardinha, com as colegas da escola? “Antes das dez estarei de volta. Me
espera para vermos juntos o filme do Woody Allen que peguei na locadora, tá?”
Tento não
pensar que ela se diverte com outras pessoas que não eu, que ri de outras
piadas que não as minhas e que outros, que não eu, sentirão o seu perfume.
Folheio desordenadamente o jornal, zapeio os canais da tevê, olho as publicações
do Facebook. Nada me aquieta. Uma ideia começa a me passar pela cabeça: --e se
eu for até lá?
Chamo um
táxi: “No Apolinário, por favor, ali na José do Patrocínio.”
Do lado de fora eu a vejo, colocando os
cabelos para trás enquanto ri, feliz, de alguma coisa que eu não disse. Como é
que pode? Percebo então que não há somente amigas, mas também um homem, ao lado
dela, que, sorrindo, lhe serve uma taça de espumante. Claro! Como sou idiota! A mensagem no celular
era dele, o safado!
Entro e vou
até à mesa onde ela está: “Vim te buscar, querida, vamos?” Ela, constrangida,
me apresenta aos amigos: “Pessoal, este é o Flávio.” Mais nada, nem meu noivo,
meu namorado ou meu marido.
Levanta,
despede-se dos colegas com elegância, e me acompanha. Tento conversar, mas ela
não responde. Em casa, apenas me avisa que irá embora no dia seguinte. Diz que
está cansada de mim, do meu ciúme, das minhas cobranças. Fala que eu a sufoco! Eu? Se ela é o que eu mais amo no mundo, que o
que eu mais quero é ela sempre comigo e feliz do meu lado! Ela não entende isso?
E ali
ficamos, num silêncio total. Vazios de palavras, vazios de gestos, vazios de
amor. De amor? Não, de amor não, mas vazios de perdão.
Crônica escrita na Oficina literária "Maria volta ao bar" do Professor Rubem Penz, lembrando o cinquentenário da morte de Antônio Maria.
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