sexta-feira, 25 de abril de 2014



Mulher bem-agradecida


                                              Mulher diz uma frase que, perante as leis civis e                          
                                              religiosas, deveria instituir justa causa para anulação de
                                              matrimônio: “ Vista um suéter,meu bem".                                                                                                          

Alice era uma mulher muito bonita. Bonita e bem-agradecida. Agradecia a Deus e a Santo Antônio o marido que a havia amparado quando mais precisava. Mocinha ainda, com um filho na barriga, vergonha da família, encontra Heitor, ex-seminarista, que casa com ela e assume a criança.
Agradecia mais ainda a Heitor. Lavava e passava suas roupas com carinho e perfeição para que ele, funcionário do Banco do Brasil, estivesse sempre muito alinhado, fizesse uma boa figura. Eram muitos os cuidados e agrados – não esquece o guarda-chuva, meu bem; pega o casaco que vai esfriar; coloca esta gravata que combina mais com a camisa azul. Alice sempre linda, perfumada, esperando o marido no final do dia. Casa impecável, jantar perfeito.
Heitor, achando tudo maravilhoso -- Alice lembrava sua mãe, quando ele era criança, cuidando dele e dos irmãos. Uma lembrança distante, pois, vivendo no seminário desde muito novo, carecia de cuidados maternos e do convívio familiar. Agora tinham mais dois filhos, bem criados, uma família. Alice, tomando conta de todos. Controlando tudo. Heitor, aos poucos, virando seu filho mais velho.
E aí, as coisas, sutilmente, foram mudando. Heitor, cansado do amor sufocante da mulher, começou a chegar tarde do trabalho, não queria mais saber do jantar que ela preparava. Cansara de ser mimado e controlado. Até o sexo ficou escasso. Alice, tão maternal, inibia o marido – quem gosta de transar com a própria mãe?
 Foi então que Heitor conheceu a Zefinha. Nem era tão bonita assim, nem tão atraente. Mas ele caiu de amores por ela. Começaram a sair juntos. Zefinha não dava a mínima se a camisa de Heitor estava amassada ou se a meia não combinava com o sapato. E Heitor descobriu um outro mundo, no qual podia usar a roupa que quisesse, a gravata que bem entendesse, esquecer o guarda-chuva ou o casaco de lã. O jantar não era lá essas coisas, é verdade, mas quem se importa? E o sexo, com Zefinha, era bem melhor e bem mais frequente -- ela não lembrava em nada a figura materna. 
Daí para o divórcio foi um passo. O juiz até parecia conhecer os dois. Rapidinho, deu a sentença, nem tentou uma conciliação. E aquela, que era para ser uma história do tipo “felizes para sempre”, acabou.

Na saída do cartório, chovia a cântaros. -– “Vou te dar uma carona de sombrinha até o carro. Vi que esqueceste o guarda-chuva. Assim podes pegar um resfriado".

Crõnica produzida na Oficina Literária "Maria volta ao bar", do escritor Rubem Penz. Esta Oficina foi organizada para lembrar os cinquenta anos da morte do cronista e compositor Antônio Maria.

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